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quinta-feira, dezembro 01, 2016

Hoje o que nos convém
é uma certa escuridão
inventada de raiz.

Talvez seja o nosso prémio,
a meio do caminho, depois
de tantos sobressaltos.

Deixamos entrar no quarto
as mais modestas canções:
Quem de dentro de si não sai
vai morrer sem amar ninguém.

Antes uma ameaça, agora
uma simples explicação.





Rui Pires Cabral



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quarta-feira, novembro 23, 2016

HEART ATTACK AND VINE (TOM WAITS)

(Para a Maria Sousa)

Caminhar cansa, mais vale
Ficar sentado a gerir os efeitos
Das lágrimas nas palavras
Ainda líquidas. Mais vale a
Caneta a atravessar o fumo
E a mansidão dos sabores.

Ir a pé arrasa com o fôlego, deixa
Os olhos fixos na calçada, sem
Vontade das montras. Se ouvíssemos
Apenas os sons do bilhar na sala
Ao lado, talvez a cerveja
Não nos caísse tão mal, talvez

O sono passasse e quiséssemos
Antes bailar ao som dos mais belos
Êxitos dos anos ‘80 ou coisa que o valha.
As metáforas são para quem
As não entende (o que faz um ás de espadas
preso ao fio do telefone?). Quem sabe

Onde fica Cahuenga, como lá chegar?
É claro que cansa e só não o sabem
Os que nunca pediram a Deus
O dom da descrença. Levanta a mão
E pede mais duas ou três das que fazem
A demora apurar a rouquidão.



Rui Almeida



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sexta-feira, novembro 18, 2016


Breve

Pai: protejo-te enquanto figura que me
empurrava nos baloiços quando era pequeno
e escrevo-te um texto que saiba a saudades
como se tivesses morrido ontem e eu não
tivesse dado conta.


Pedro Tiago



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quarta-feira, novembro 09, 2016

A propósito de grandes épocas, vem-me à lembrança uma frase, que aliás o senhor conhece:

a história dá lições, mas não tem alunos.

Ingeborg Bachmann

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sábado, novembro 05, 2016

FORTRESS OF SOLITUDE



deixarias a chave no hall sem nunca mais te preocupares em teres um local secreto. imagina o sono. o acordar. usaria a chave para pequenas habilidades quotidianas. sempre seguros, nunca mais alerta. o mundo em implosão lá fora. mas a gaveta verde fechada com livros de petrologia. e a vida perigosa apenas nas arestas. imagina o relógio. a balança. o sono. os caminhos já não serem estreitos.




Sandra Andrade




jen davis 33

quarta-feira, outubro 26, 2016

Os dedos com que me tocou
persistem sob a pele, onde a memória os move.
Tacteiam, impolutos. Tantas vezes
o suor os traz consigo da memória, que não tenho
na pele poro através
do qual eles não procurem
sair quando transpiro.
A pele é o espelho da memória.



Luís Miguel Nava



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sexta-feira, outubro 21, 2016

Arrasto uma cadeira para mim
e outra para os meus problemas
neste café onde os velhos mastigam
o declínio do país, mortes e futebol
e histórias de médicos que se esquecem
de luvas, tesouras e relógios
nas entranhas dos doentes.

Pergunto-me se esta azia, se os blues diários,
a arritmia e o sangue gordo
são o resultado da tua última operação;
se entre tantas cirurgias de peito aberto,
terás deixado para trás um corpo estranho
debaixo da ponte que carrego
entre o coração e o ventre.

(Se me abrisses, verias que sou tão oca
como as bonecas russas.)

Quero dizer aos velhos que também eu
sou um milagre da medicina,
que aguento dia após dia
estas pequenas negligências domésticas
de cortar a bisturi entradas na derme
e espalhar aqui e ali
pequenas sementes inférteis.



Ana Bessa Carvalho



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