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quinta-feira, fevereiro 02, 2017

RETRATO


Uma demora lenta nas palavras
um calor bom na palma das mãos
uma maneira de gostar das pessoas e das coisas
sem tolher movimentos ou forçar as superfícies
beber aos golinhos o café a ferver
ou o whisky chocalhado com pedrinhas de gelo
viver viver roçando as coisas ao de leve
sem poupar o veludo das mãos e do corpo
sem regatear o amor à flor da pele
olhar em torno de si perdida ou esperar o verão
e saber de um saber obscuro que o calor
todo o calor é de mais dentro que vem



Rui Caeiro



 photo laurataylor11.jpg

domingo, janeiro 22, 2017

 Guia de aves:
Ainda há
lugar para pássaros.

No interior das casas, eles pousam explicativos
do nada feito de suas asas.

Largam por isso penugem e pigmento
sobre madeiras baratas, e extenuam
a íntima velocidade
que lhes sobe ao bico como um silêncio.



Elisabete Marques




 photo samuel bradley2.jpg

terça-feira, janeiro 10, 2017

considerações

1
Só poetas muito pobres
falarão da riqueza destas casas.

As casas que limpo habitam o nadir
da hierarquia poética das casas
Mas com elas se paga o preço da arte.
Imprestável e luxuosa, dizem
Vital, penso, enquanto limpo casas.

2
São-me muito próximas, estas casas vazias
Não há comunhão com uma casa até assoar cotão
Sentindo a casa sair de mim

Quando me mudei para a minha casa
Também a limpei dos pés ao teto
E por isso me foi habitando nariz e poros.

No fim do dia enquanto a casa escorria
 pelo branco da banheira, pensei:
o habitante é o meio pelo qual uma casa regressa a si.

3
Se passares um dia a limpar uma casa
Ficarás muito limpo por dentro e
Muito sujo por fora.

4
Teorema:
Quanto mais suja está uma casa, mais limpa está a sua esfregona

5
Não é vergonha que o poeta tenha que limpar casas.
Vergonha seria não escrever sobre elas.

6
Há casas tão sujas que pedem black metal por banda sonora

7
Estas casas nunca se ocupam por muito tempo.
São prostitutas, não são casas para casar.
Entre um e outro ocupante
tenho que apagar as marcas dos corpos

Descobri uma esponja mágica
Que limpa dedadas da parede.
Custa o preço de duas cervejas
A terceira bebo-a ao fim do dia

8
Limpar-me com cerveja.

9
Por vezes os lençóis são abandonados
ainda deitados nas camas.
São um arrepio estes lençóis.
Sair para comprar tabaco e não voltar.

10
Uma casa não pode ser só bela
Tem que ter qualquer coisa de triste,
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Teria escrito Vinicius de Moraes
Se fosse um poeta tão pobre quanto eu.

11
Trapos são os velhos.
As minhas t -shirts mais amadas terminam a vida
a esfregar paredes.

12
Abandonam-se nas casas coisas sem préstimo
Móveis que não valem o seu peso às costas,
Canetas de apelo politico que nunca escreveram senão listas de compras
(o poeta usará estas canetas para escrever sobre casas)

13
Por vezes, nestas casas, também encontro fotografia.
Evidência:
Algumas fotografias pesam tanto nas costas como móveis.

14
Com uma casa,
pago a água ou a luz
da minha casa.

15
Nalgumas casas cortaram água e luz.
há que trocar horas de sol por horas na casa
há que levar a água nas mãos
(neste caso o poeta é também aguadeiro,
Direi rio, escada acima, rio Nilo)

16
Por não ter medo de mexer nas zonas que outros evitam
O poeta é campeão a lavar sanitas.

17   
Limpar casas é o preço de coisas muito caras,
como a arte.








Ana Tecedeiro



 photo StevenTainsh_2.jpg
A Sombra


Trago comigo mais noite
que a minha própria sombra.
Ela que insiste sempre em ficar
mais rente: ao chão, às quatro
paredes, aos objectos dispostos
que tentam com a sua ocupação
fazer uma leitura dos dias,
ocupar um pouco mais de mim,
tentar o seu regresso para mim,
que apenas ensaio o escuro
nestes dias.



Rui Miguel Ribeiro



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quinta-feira, janeiro 05, 2017

CONTRA-CASA

É justamente a casa que me derruba. Não saber dela nem onde procurar. Nem ter pés, nem mãos, nem coração, nem dentes já para a encontrar.
Desistir dela.
Não me poder acamar.
O quarto.
A cama.
Os meus livros separados de mim e todas as tragédias que trago comigo.
Descansar em bolor. Tossir à noite.

A cama não tem tecto. Canto-me para embalar enquanto o vento. Enquanto o mistério.
Tudo ocupado.
Tudo fora.

Não sair pela janelíssima é regra imposta pela constituição da casa. De mim para o horror disto. Para os outros. Eu e a tentativa.
A casa derruba em qualquer que seja a instância.

            Estilhaços.
Casa é o que resta.
O que acaba por acontecer.



Patrícia Baltazar



 photo rebeccafinch_3.jpg

quarta-feira, dezembro 28, 2016

Sejamos sinceros: nunca vos passou pela cabeça quererem ver-se viver. Esperam viver para vocês, e fazem bem, sem pensarem naquilo que, entretanto, possam ser para os outros; não porque a opinião alheia não vos interesse para nada, porque vos interessa e muito; mas porque vivem na ilusão tranquila de que os outros, de fora, devem ter de vocês a imagem que vocês têm de vocês próprios.
E se depois alguém vos faz notar que o vosso nariz descai um nadinha para a direita... não?, que ontem disseram uma mentira... nem assim?



Luigi Pirandello


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quarta-feira, dezembro 21, 2016

A imobilidade era o seu domínio.
Durante todo o tempo
não dera um passo
não esboçara um único movimento.
Alguns animais selvagens são
assim perante a morte
e o perigo.






João Miguel Fernandes Jorge



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